segunda-feira, outubro 13, 2008

A esperança é a última que morde (Cortázar/Keats - parte 1)
































"Mi queridísima niña:

Me he puesto a pasar en limpio algunos versos, pero no me da ningún gusto trabajar. Tengo que escribirte una o dos líneas y ver si eso me ayuda a alejarte de mi espiritu aunque sea por unos instantes, no puedo existir sin ti. Todo lo olvido salvo la idea de volver a verte. Mi vida parece detenerse ahi: más allá no veo nada. Me has absorbido. En este mismo momento tengo la sensación de estar disolviéndome...Si no tuviera la esperanza de verte pronto me sentiría en el colmo de la desdicha. Tendría miedo de separarme, de estar demasiado lejos de ti. Mi dulce Fanny, no cambiará nunca tu corazón?, Amor mío, no cambiarás? Alguna vez me asombró que los hombres pudieran ir al martirio por su religión. Temblaba de pensarlo. Ahora ya no tiemblo; podría ir al martirio por mi religión- El amor es mi religión-, y podría morir por él....Me has cautivado con un poder que soy incapaz de resistir; y sin embargo lo era hasta que te ví; y desde que te he visto me he esforzado a menudo en razonar contra las razones de mi amor. Ya no puedo hacerlo, el dolor sería demasiado grande. Mi amor es egoísta. No puedo respirar sin ti...." (carta de John Keats a Fanny Browne, 13/10/1819)




Sim, amigos, apesar dos pesares não posso negar, sou mesmo um cândido e romântico otimista: acredito na vitória final do socialismo utópico, na descoberta de novas possibilidades tecnológicas a serviço da humanidade, no contato pacífico com seres de outros planetas, no restabelecimento do ecossistema planetário, na permanência do Vasco da Gama na primeira divisão do Brasileiro, no sorteio do meu número de PIC um dia antes do Natal, na conclusão de minha tese de doutorado até o ano que vem...

Tudo isso veio à tona ontem, em meio à leitura do esplêndido estudo de Julio Cortázar sobre a obra de um dos maiores poetas ingleses de todos os tempos. Quando escreveu as seiscentas e tantas páginas de Imagen de John Keats , Cortázar tinha a mesma idade de seu ídolo ao morrer: ou seja, 26 anos (!). O fato parece guardar alguma pista sobre a obsessão do jovem Julio pela obra do autor da clássica "Ode to a Grecian Urn". Não resisto a citá-la na íntegra - apenas pelo simples prazer de relê-la na magistral tradução de Augusto de Campos(ok, puristas e sabichões, o original segue abaixo)


ODE SOBRE UMA URNA GREGA


I

Inviolada noiva de quietude e paz,
Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
De homens ou divindades, para sempre errantes.
Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?


II

A música seduz. Mas ainda é mais cara
Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
Se não chegas ao fim, ela também não muda,
É sempre jovem e a amarás eternamente.


III

Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
Que deixa o coração desconsolado e exausto,
A fronte incendiada e língua ressequida.


IV

Quem são esses chegando para o sacrifício?
Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
Ou no alto da colina foi despovoar
Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
Em tuas ruas, e ninguém virá contar
Por que razão estás abandonada e triste.


V

Ática forma! Altivo porte! em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
"A beleza é a verdade, a verdade a beleza"
— É tudo o que há para saber, e nada mais.



ODE ON A GRECIAN URN

I

Thou still unravish’d bride of quietness,
Thou foster-child of silence and slow time,
Sylvan historian, who canst thus express
A flowery tale more sweetly than our rhyme:
What leaf-fring’d legend haunts about thy shape
Of deities or mortals, or of both,
In Tempe or the dales of Arcady?
What men or gods are these? What maidens loth?
What mad pursuit? What struggle to escape?
What pipes and timbrels? What wild ecstasy?


II

Heard melodies are sweet, but those unheard
Are sweeter; therefore, ye soft pipes, play on;
Not to the sensual ear, but, more endear'd,
Pipe to the spirit ditties of no tone:
Fair youth, beneath the trees, thou canst not leave
Thy song, nor ever can those trees be bare;
Bold lover, never, never canst thou kiss
Though winning near the goal — yet, do not grieve;
She cannot fade, though thou hast not thy bliss,
For ever wilt thou love, and she be fair!


III

Ah, happy, happy boughs! that cannot shed
Your leaves, nor ever bid the Spring adieu;
And, happy melodist, unwearied,
For ever piping songs for ever new;
More happy love! more happy, happy love!
For ever warm and still to be enjoy’d,
For ever panting, and for ever young;
All breathing human passion far above,
That leaves a heart high-sorrowful and cloy’d,
A burning forehead, and a parching tongue.


IV

Who are these coming to the sacrifice?
To what green altar, O mysterious priest,
Lead’st thou that heifer lowing at the skies,
And all her silken flanks with garlands drest?
What little town by river or sea shore,
Or mountain-built with peaceful citadel,
Is emptied of this folk, this pious morn?
And, little town, thy streets for evermore
Will silent be; and not a soul to tell
Why thou art desolate, can e’er return.


V

O Attic shape! Fair attitude! with brede
Of marble men and maidens overwrought,
With forest branches and the trodden weed;
Thou, silent form, dost tease us out of thought
As doth eternity: Cold Pastoral!
When old age shall this generation waste,
Thou shalt remain, in midst of other woe
Than ours, a friend to man, to whom thou say’st,
«Beauty is truth, truth beauty,» — that is all
Ye know on earth, and all ye need to know.
(Publicado em 1820)


Eis aí um poema que muitos poetas e especialistas têm vontade de recitar de joelhos. Cortázar certamente não o faria - ciente de que a grande poesia keatsiana é, como a de Rimbaud, um chamado à fruição plena da vida, e não um louvor à metafísica do estético, como quereriam alguns. O que importa à beleza é o aqui e agora da verdade - esteja ela onde estiver, na contemplação da urna grega ou no canto de um simples rouxinol.

***

Apesar de sua extensão assombrosa, Imagen de John Keats está longe de constituir uma tese acadêmica - o que deve ter pesado na decisão do British Council em não aceitá-lo para publicação - talvez pelo fato de ser muito mais um diálogo entre gênios do que um tributo oficial.

***

Uma coincidência atroz: a carta de John Keats a Fanny Browne foi escrita no dia 13 de outubro de 1819. Ou seja, há exatos 189 anos... Será este um dia propício a desesperos amorosos? Ainda por cima, logo após o feriado de Nossa Senhora Aparecida e o dia das crianças! O que Cortázar teria a dizer sobre o assunto, ele mesmo um aficcionado de fenômenos similares?
(continua na próxima semana)

domingo, outubro 05, 2008

Existe morte após a morte?


A pergunta, aparentemente insana, me ocorreu enquanto assistia a um desses documentários de tv a cabo, no qual um distinto cientista revelava sua experiência pessoal no limiar da vida. Como atestam tantos depoimentos similares, parece que existe mesmo um túnel de luz, uma espécie de passagem cósmica, onde moribundos terminais são intimados a decidir se querem retornar aos seus respectivos corpos ou entrar de vez no mundo espiritual.
Quem volta nunca mais vê a vida do mesmo jeito. Em geral reconhecem o ocorrido como um sinal milagroso da existência de Deus: a voz austera e serena que dizem ter escutado seria Dele, ou de alguém de Sua confiança - um santo, um anjo talvez. Dali em diante, o sobrevivente fica tão agradecido pela segunda chance que passa a colaborar com estudiosos do assunto: médiuns, parapsicólogos, publicitários do além e da tese reencarnatória...

Tudo isso já virou clichê. Pensando em renovar o debate, comecei a buscar uma pegunta realmente nova. Pela lógica do argumento espírita, a morte não passa de uma passagem: o único estado possível seria a vida, eternamente mutável e desdobrada. Mas se a morte é um instante entre duas formas de vida, então existem diversas e variadas mortes no caminho de qualquer vivente. Como a distância entre dois pontos pode ser considerada infinita, a morte é infinitamente pontuada ao longo dos caminhos espirituais. Portanto, ultrapassa a idéia de mera passagem: não apenas demarcando as fases do processo vital evolutivo, mas sobretudo afirmando que algo de insondável e duradouro permeia o que insistimos em dividir em três termos - princípio, meio e fim.

Sim, existe morte após a morte. Que o "não" tenha vencido a enquete, acho normal...

Enfim, agradeço aos votantes e me despeço por hoje. Preciso cuidar de renascer uma vez mais. Aliás, como qualquer pessoa viva ou morta.

quarta-feira, setembro 17, 2008

A quem interessar possa

1. Odeio a ponte Rio-Niterói
2. Ressuscitei numa varanda macaense, às 9 da manhã do dia 12 de outubro de 2008
3. Tenho o dever de escrever sobre tudo que me aconteceu nos últimos nove anos
4. Preparo um livro sobre a soberba poesia de Ricardo Domeneck
5. Procuro um quarto e sala próximo ao centro do Rio
6. Dependo da delicadeza dos estranhos (e de sua paciência também)
7. Pretendo em breve rir disso tudo, tomando Coca Zero
8. Afirmo categoricamente a superioridade do jazz sobre qualquer outro estilo de música ocidental (embora no duro prefira folk rock dos anos 60/70)
9. Li Ulisses, Rayuela, O Camponês de Paris, A Montanha Mágica, Crime e Castigo, Malone Morre, Pergunte ao Pó e isso basta
10. Não desisto facilmente de nada que me faça feliz.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Toca Roberto!


Entre as lembranças da minha infância suburbana, há uma que mamãe adora recontar em festas de família. Morávamos em um pequeno apartamento em Jacarepaguá; enquanto dona Regina lavava roupa no tanque, eu ficava ao seu lado, ouvindo-a cantar - a não ser que a vizinha fizesse o favor de tocar um disco de Roberto Carlos no último volume de sua vitrola... Se a música parava por algum motivo, mamãe conta que eu gritava, suplicante:
- Toca Roberto!
Os anos passaram e Roberto continua sendo para mim algo maior que um ídolo. Acho que acabamos nos tornando íntimos. Pudera: depois de tantos Natais em sua companhia, não poderia ser diferente.

domingo, agosto 24, 2008

PERGUNTE AO PÓ


Quando li o livro de Fante, aos 17 anos, sabia que nunca mais esqueceria a história de Arturo Bandini. Não que minha identificação com um escritor fudido, autor de um conto chamado "O Cachorrinho riu" e escravo emocional de uma garçonete mexicana me deixasse à vontade. Mas aquele filho da puta tinha acabado com a minha raça, irremediavelmente - e disso eu não podia mais fugir. A histórica tradução de Paulo Leminski - livre e passional como Camila, crítica e autoral como Bandini - sublinhava este selo de amor perene à primeira leitura, à última releitura e, sobretudo, à próxima, de malas prontas, rumo a Los Angeles... E agora, Arturo, seu otário, o que vamos fazer?

Li "Pergunte ao pó" por sugestão de um amigo. "Esse romance é sua cara, você vai se amarrar, o cara é mais idiota que eu e você juntos" - ele disse. O cara estava coberto de razão. O livro me hipnotizou covardemente: só deu pra largar quatro horas depois, com olhos vermelhos e o coração em frangalhos, tomado de inveja e gratidão pelo autor daquilo. Li todos os títulos que a Brasiliense publicou em seguida, e mesmo sem ter feito nada comparável a'Pergunte ao pó" (não apenas seu melhor trabalho, mas um dos livros mais legais da vida de muita gente legal) Jonh Fante é sempre aquilo: certeiro, hilário, seco, comovente, profissional.

Como Arturo, nem sempre amamos o que há de melhor em nós mesmos ou nos outros. Talvez seja essa a grande moral da sua paixão tragicômica por Camila Lopez - para mim até hoje uma das melhores imagens de amor sincero que colhi nos canyons da literatura americana, essa boa companheira de viagens solitárias e decisivas.
O resto é deserto, luar e sertão.

...


Last Poem (to C.L.)

Poeira da bondade
é meu nome:
o dela? Ask the dust,
my dearest -


sim, pergunte a Bandini,
a John Fante

e a mais

ninguém
sob o limbo

de olhos fixos
na filha do deserto:

cativa saudade

muda miragem
do incerto

quinta-feira, agosto 21, 2008

Um trecho de Guy Debord


"No bairro da perdição onde veio parar minha juventude, como que para terminar de se instruir, parecia que haviam marcado encontro os sinais precursores de um próximo desmoronamento de todo o edifício da civilização. Ali permanentemente só se encontravam indivíduos que só poderiam ser definidos negativamente, pela boa razão de não terem nenhuma profissão, não se ocuparem com nenhum tipo de estudo e não praticarem arte alguma (...) Nenhuma doutrina reconhecida moderava a conduta de ninguém e, mais que isso, nenhuma vinha propor àquelas existências alguma ilusória finalidade. Diversas práticas de um instante estavam prontas a expressar, à luz da evidência, sua tranqüila defesa. o niilismo é talhado para moralizar assim que é tocado pela idéia de se justificar: um roubava os bancos e se glorificava por não roubar os pobres; outro nunca havia matado ninguém quando não estava enfurecido. Apesar de toda essa eloqüência disponível, eram as pessoas mais imprevisíveis e, por vezes, muito perigosas. Foi o fato de ter passado por tal meio que me permitiu, depois, dizer algumas vezes, com a mesma imponência do demagogo dos Cavaleiros de Aristófanes: "Cresci nas ruas, eu também!" (Guy Debord, 1931-1994)

terça-feira, agosto 19, 2008

Lavorare stanca


Trabalho, trabalho, trabalho. Nada mais importa no infame desconcerto da vida. A matéria é torpe, o amor, incerto, o futebol "uma caixinha de surpresas", a felicidade uma contradição em termos - só mesmo o trabalho dispensa definições e adjetivos. Trabalhar ou morrer de fome, à míngua, humilhando-se preguiçosamente. Trabalhar pra caralho ou estirar-se na cama surtado, ansioso ou deprimido, remoendo dissabores, nos braços de uma ressaca sem fim. Trabalhar impassível no meio da tempestade, errando, acertando, caindo, levantando, seguindo a lição de Sísifo... Muito trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Escrever um livro sobre ou chacinar o pessoal do escritório? Nada disso, camarada - apenas o de sempre, o simples, o fácil: trabalhar o tempo todo, o dia inteiro, passar noites em claro trabalhando em moto contínuo, ao menos até que o maldito telefone toque, essa porra de telefone que nunca toca. Trabalhar sem pensar muito na vida, nem viver pensando em alguém que nunca liga quando você espera, e que também deve estar trabalhando à beça nesse instante, aliás bem mais que você, seu vagabundo de merda.