domingo, outubro 05, 2008

Existe morte após a morte?


A pergunta, aparentemente insana, me ocorreu enquanto assistia a um desses documentários de tv a cabo, no qual um distinto cientista revelava sua experiência pessoal no limiar da vida. Como atestam tantos depoimentos similares, parece que existe mesmo um túnel de luz, uma espécie de passagem cósmica, onde moribundos terminais são intimados a decidir se querem retornar aos seus respectivos corpos ou entrar de vez no mundo espiritual.
Quem volta nunca mais vê a vida do mesmo jeito. Em geral reconhecem o ocorrido como um sinal milagroso da existência de Deus: a voz austera e serena que dizem ter escutado seria Dele, ou de alguém de Sua confiança - um santo, um anjo talvez. Dali em diante, o sobrevivente fica tão agradecido pela segunda chance que passa a colaborar com estudiosos do assunto: médiuns, parapsicólogos, publicitários do além e da tese reencarnatória...

Tudo isso já virou clichê. Pensando em renovar o debate, comecei a buscar uma pegunta realmente nova. Pela lógica do argumento espírita, a morte não passa de uma passagem: o único estado possível seria a vida, eternamente mutável e desdobrada. Mas se a morte é um instante entre duas formas de vida, então existem diversas e variadas mortes no caminho de qualquer vivente. Como a distância entre dois pontos pode ser considerada infinita, a morte é infinitamente pontuada ao longo dos caminhos espirituais. Portanto, ultrapassa a idéia de mera passagem: não apenas demarcando as fases do processo vital evolutivo, mas sobretudo afirmando que algo de insondável e duradouro permeia o que insistimos em dividir em três termos - princípio, meio e fim.

Sim, existe morte após a morte. Que o "não" tenha vencido a enquete, acho normal...

Enfim, agradeço aos votantes e me despeço por hoje. Preciso cuidar de renascer uma vez mais. Aliás, como qualquer pessoa viva ou morta.

quarta-feira, setembro 17, 2008

A quem interessar possa

1. Odeio a ponte Rio-Niterói
2. Ressuscitei numa varanda macaense, às 9 da manhã do dia 12 de outubro de 2008
3. Tenho o dever de escrever sobre tudo que me aconteceu nos últimos nove anos
4. Preparo um livro sobre a soberba poesia de Ricardo Domeneck
5. Procuro um quarto e sala próximo ao centro do Rio
6. Dependo da delicadeza dos estranhos (e de sua paciência também)
7. Pretendo em breve rir disso tudo, tomando Coca Zero
8. Afirmo categoricamente a superioridade do jazz sobre qualquer outro estilo de música ocidental (embora no duro prefira folk rock dos anos 60/70)
9. Li Ulisses, Rayuela, O Camponês de Paris, A Montanha Mágica, Crime e Castigo, Malone Morre, Pergunte ao Pó e isso basta
10. Não desisto facilmente de nada que me faça feliz.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Toca Roberto!


Entre as lembranças da minha infância suburbana, há uma que mamãe adora recontar em festas de família. Morávamos em um pequeno apartamento em Jacarepaguá; enquanto dona Regina lavava roupa no tanque, eu ficava ao seu lado, ouvindo-a cantar - a não ser que a vizinha fizesse o favor de tocar um disco de Roberto Carlos no último volume de sua vitrola... Se a música parava por algum motivo, mamãe conta que eu gritava, suplicante:
- Toca Roberto!
Os anos passaram e Roberto continua sendo para mim algo maior que um ídolo. Acho que acabamos nos tornando íntimos. Pudera: depois de tantos Natais em sua companhia, não poderia ser diferente.

domingo, agosto 24, 2008

PERGUNTE AO PÓ


Quando li o livro de Fante, aos 17 anos, sabia que nunca mais esqueceria a história de Arturo Bandini. Não que minha identificação com um escritor fudido, autor de um conto chamado "O Cachorrinho riu" e escravo emocional de uma garçonete mexicana me deixasse à vontade. Mas aquele filho da puta tinha acabado com a minha raça, irremediavelmente - e disso eu não podia mais fugir. A histórica tradução de Paulo Leminski - livre e passional como Camila, crítica e autoral como Bandini - sublinhava este selo de amor perene à primeira leitura, à última releitura e, sobretudo, à próxima, de malas prontas, rumo a Los Angeles... E agora, Arturo, seu otário, o que vamos fazer?

Li "Pergunte ao pó" por sugestão de um amigo. "Esse romance é sua cara, você vai se amarrar, o cara é mais idiota que eu e você juntos" - ele disse. O cara estava coberto de razão. O livro me hipnotizou covardemente: só deu pra largar quatro horas depois, com olhos vermelhos e o coração em frangalhos, tomado de inveja e gratidão pelo autor daquilo. Li todos os títulos que a Brasiliense publicou em seguida, e mesmo sem ter feito nada comparável a'Pergunte ao pó" (não apenas seu melhor trabalho, mas um dos livros mais legais da vida de muita gente legal) Jonh Fante é sempre aquilo: certeiro, hilário, seco, comovente, profissional.

Como Arturo, nem sempre amamos o que há de melhor em nós mesmos ou nos outros. Talvez seja essa a grande moral da sua paixão tragicômica por Camila Lopez - para mim até hoje uma das melhores imagens de amor sincero que colhi nos canyons da literatura americana, essa boa companheira de viagens solitárias e decisivas.
O resto é deserto, luar e sertão.

...


Last Poem (to C.L.)

Poeira da bondade
é meu nome:
o dela? Ask the dust,
my dearest -


sim, pergunte a Bandini,
a John Fante

e a mais

ninguém
sob o limbo

de olhos fixos
na filha do deserto:

cativa saudade

muda miragem
do incerto

quinta-feira, agosto 21, 2008

Um trecho de Guy Debord


"No bairro da perdição onde veio parar minha juventude, como que para terminar de se instruir, parecia que haviam marcado encontro os sinais precursores de um próximo desmoronamento de todo o edifício da civilização. Ali permanentemente só se encontravam indivíduos que só poderiam ser definidos negativamente, pela boa razão de não terem nenhuma profissão, não se ocuparem com nenhum tipo de estudo e não praticarem arte alguma (...) Nenhuma doutrina reconhecida moderava a conduta de ninguém e, mais que isso, nenhuma vinha propor àquelas existências alguma ilusória finalidade. Diversas práticas de um instante estavam prontas a expressar, à luz da evidência, sua tranqüila defesa. o niilismo é talhado para moralizar assim que é tocado pela idéia de se justificar: um roubava os bancos e se glorificava por não roubar os pobres; outro nunca havia matado ninguém quando não estava enfurecido. Apesar de toda essa eloqüência disponível, eram as pessoas mais imprevisíveis e, por vezes, muito perigosas. Foi o fato de ter passado por tal meio que me permitiu, depois, dizer algumas vezes, com a mesma imponência do demagogo dos Cavaleiros de Aristófanes: "Cresci nas ruas, eu também!" (Guy Debord, 1931-1994)

terça-feira, agosto 19, 2008

Lavorare stanca


Trabalho, trabalho, trabalho. Nada mais importa no infame desconcerto da vida. A matéria é torpe, o amor, incerto, o futebol "uma caixinha de surpresas", a felicidade uma contradição em termos - só mesmo o trabalho dispensa definições e adjetivos. Trabalhar ou morrer de fome, à míngua, humilhando-se preguiçosamente. Trabalhar pra caralho ou estirar-se na cama surtado, ansioso ou deprimido, remoendo dissabores, nos braços de uma ressaca sem fim. Trabalhar impassível no meio da tempestade, errando, acertando, caindo, levantando, seguindo a lição de Sísifo... Muito trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Escrever um livro sobre ou chacinar o pessoal do escritório? Nada disso, camarada - apenas o de sempre, o simples, o fácil: trabalhar o tempo todo, o dia inteiro, passar noites em claro trabalhando em moto contínuo, ao menos até que o maldito telefone toque, essa porra de telefone que nunca toca. Trabalhar sem pensar muito na vida, nem viver pensando em alguém que nunca liga quando você espera, e que também deve estar trabalhando à beça nesse instante, aliás bem mais que você, seu vagabundo de merda.

domingo, julho 06, 2008

Quem?


Entre 1982 e 1986, a rádio Fluminense FM era a melhor opção para qualquer adolescente carioca em busca de rock, reggae, punk, metal, new wave, jazz e MPB alternativa (da Lira Paulistana, por exemplo). Não havia nada parecido no dial naqueles tempos pré-internáuticos, em meio aos grunhidos finais do regime militar. O sr. Luiz Antonio Mello, programador e co-fundador da rádio, acabou tornando-se responsável pelo meu primeiro contato com a banda inglesa The Who. O audaz niteroiense costumava programar coisas com "Drowned" e "5:15" (de Quadrophenia), em versões piratas e ao vivo. Também aprendi a tocar "Substitute" e "I Can See for miles" no violão por conta do álbum Rough Boys, uma coletânea who maniac produzida por L.A. Mello para o selo da rádio (lançado em LP pela Polydor).

Nos anos 90, a banda voltou à moda, por conta da geração grunge e de seu revisonismo explícito. Por pouco fomos brindados, no ano passado, com um show da turnê do último álbum. É claro que sem a cozinha infernal de John Entwistle e Keith Moon (ambos falecidos) a coisa toda não decola como antes. Ruim é que não ficou: pra falar a verdade, o que se pode ver no Youtube é no mínimo impressionante - tanto pela energia da performance de Roger Daltrey, quanto pela atualidade das canções de Townshend.

Na história musical do século passado, não há nenhuma banda superior. Menos posers que o Led Zeppelin, menos descaralhados que os Stones e os Stooges, menos experimentais que os Kinks ou o Velvet Underground e mais loucos e esporrentos que todos juntos, os então rapazes do The Who lograram uma conjunção inédita de poesia dramática e rock pesado, captada em toda sua fúria pelo álbum Live at Leeds (ao vivo, 14/02/1970). Simplesmente inacreditável. Para mim e para muitos, Live at Leeds é o melhor registro ao vivo da história do rock, ponto final.